Mostrando postagens com marcador ensinamento reflecção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ensinamento reflecção. Mostrar todas as postagens

26 de jul. de 2010

Cientistas afirmam que não existe um “gene gay”

Uma equipe da Universidade de Illinois, que analisou todo o genoma humano, afirma que não existe um “gene gay”.

Num artigo publicado no jornal Human Genetics, eles disseram que fatores ambientais também podem estar envolvidos.

As conclusões incendeiam o debate sobre se a orientação sexual é uma questão de escolha.

Cromossomo

Segundo o chefe da equipe de pesquisadores, Brian Mustanski, boa parte das pesquisas anteriores sobre homossexualidade masculina se concentrou apenas no cromossomo X, passado para meninos por suas mães.

Os cientistas examinaram 22 pares de cromossomos não-sexuais de 456 pessoas, todas parte de 146 famílias com dois ou mais irmãos gays.

Eles encontraram diversos pedaços idênticos de DNA compartilhados por irmãos gays em outros cromossomos que não apenas o X.

Cerca de 60% desses irmãos compartilhavam DNA idêntico em três cromossomos.

“Nosso estudo ajuda a estabelecer que genes desempenham um papel importante em determinar se um homem é hetero ou homossexual”, disse, acrescentando que outros fatores também são importantes.

“A melhor suposição é que genes múltiplos, potencialmente interagindo com influências ambientais, explicam diferenças em orientação sexual.”

Alan Wardle, do grupo ativista gay Stonewall, disse
“É um estudo interessante que contribui para o debate”.

“Independentemente de a orientação sexual ser determinada pela natureza, pela criação ou pelos dois, a coisa mais importante é que gays e lésbicas sejam tratados com igualdade e possam viver sem sofrer discriminação”, afirmou ele.

Mustanski disse que o próximo passo será tentar confirmar as descobertas com novos estudos, e identificar genes particulares dentro das seqüências recém-descobertas que estão ligados à orientação sexual.

Fonte: BBC Brasil / Gospel Prime

23 de abr. de 2010

Os cristãos novos e a formação das sociedades secretas no Brasil Colonial

A conversão forçada ao Cristianismo de todos os judeus portugueses em 1497 criou uma nova categoria de gente e uma nova religião:
os cristãos-novos e o criptojudaísmo.

Isolados do Judaísmo tradicional
(proibido em todo o Império português) e imersos em um mundo cristão, a crença desses cristãos-novos sofreu alterações profundas.
Tinham que ser católicos praticantes; não tinham livros judaicos, não havia ninguém para instruir seus filhos no hebraico, sem as tardes de sábado para o estudo e debate; o Judaísmo que chegava até eles não era profundo nem ortodoxo, mas uma transmissão oral de conhecimento daqueles que lembravam melhor as tradições judaicas.

A religião dos cristãos novos era a "religião marrana", religião secreta que não foi uniforme nem no tempo nem no espaço.
A essência dessa crença pode ser resumida na salvação através da Lei de Moisés e não através da Lei de Cristo:
confissão em uma fé judaica, continha a linguagem e a concepção da teologia católica.

Esses portugueses de origem judaica foram perseguidos e processados pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição durante quase três séculos, acusados de um crime:
a heresia judaica.
A intolerância religiosa que reinava na Metrópole transferiu-se para o ultramar.

Em Portugal e suas colônias, a Inquisição perseguiu todos os "diferentes":
os que professavam uma outra fé Judaísmo, Luteranismo, Islamismo e os que apresentavam comportamentos considerados desviantes, como homossexuais, blasfemos, bígamos, feiticeiras e padres solicitantes.

Pesquisas recentes mostram que os cristãos novos representavam cerca de 20% da população branca e livre do Brasil colônia, o que ressalta a importância do conhecimento desse grupo para a história do Brasil.

Grupo que vivia dividido entre o mundo católico e a memória judaica.
Discriminado por sua ancestralidade, estava assimilado à cultura ibérica, porém não integrado no mundo cristão.
Apresentava uma dualidade inerente à sua condição cristã nova, dividido entre um mundo judaico secreto e um mundo cristão aparente.
Essa dualidade refletia-se em sua vida cotidiana, vivenciada diversamente por cada um deles, o que é possível perceber através de suas histórias, reveladas nos seus processos do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Portugal.
Sua fragilidade era evidente, passíveis de serem presos pela Inquisição devido a sua origem, Era preciso ser "limpo de sangue" para sobreviver sem sobressaltos.

Todos viviam em uma realidade cristã, na qual haviam crescido.
Batizados ao nascer, crismados, faziam todas as obras de bons católicos.
Confessavam seus pecados aos párocos das vilas, que muitas vezes iriam aos engenhos dizer missa.
Nas grandes festas religiosas católicas, como por exemplo na Páscoa, celebravam em conjunto.

Apesar de assimilados à sociedade ampla católica, a discriminação legal que atingia todos os descendentes de judeus não permitia sua integração completa.
A memória histórica alimentou-os durante três séculos no Brasil colonial, e a consciência de sua diferença era essencial para que pudessem responder perante o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição.

A exigência por parte do Tribunal de que mantivessem uma memória do Judaísmo para poder confessar quando presos ou, a existência de uma religião secreta realmente vivenciada, fazia com que os cristãos novos se juntassem em comunidades secretas. Essas serviam também como modo de resistência à perseguição inquisitorial

As sociedades secretas foram o produto de um longo processo, que durante dois séculos preservou a herança de seus antepassados.
Este processo começou desde a formação dos primeiros núcleos em São Vicente, São Paulo, Bahia e Pernambuco.
Os cristãos novos chegaram como colonizadores, aventureiros ou fugitivos da Inquisição e espalharam-se por toda a colônia.


Desde o século XVI os cristãos novos reuniam-se secretamente, fosse para professar sua religião em segredo, fosse para elaborar estratégias de como sobreviver em uma sociedade preconceituosa.

Assim, no século XVI, encontramos no Nordeste verdadeiras "sinanogas" geração próxima da conversão forçada, cristãos-novos que tiveram contato com seus avós ou pais judeus.
O Judaísmo era mais presente e mais parecido com o tradicional.

Em Pernambuco do século XVI, um velho manco passeava avisando das datas das celebrações com um lenço vermelho amarrado à perna.
Branca Dias e seu marido Diogo Fernandes mantinham os costumes judaicos e se reuniam para celebrar o shabbat.
Na Bahia, a família Antunes mantinha em seu engenho, ao lado da capela, uma snoga; diziam-se descendentes dos Macabeus bíblicos.
Praticavam vários costumes judaicos, como abençoar os filhos passando a mão pelo rosto, da cabeça ao pescoço, rezar orações judaicas movimentando o corpo à maneira dos judeus e mostravam repulsa a símbolos cristãos, como o crucifixo entre tantos outros.

No Nordeste, a denúncia de cristãos novos idolatrarem a "toura"
sob a forma de um bezerro ou vaca, que nada tem a ver com a Torah, livro sagrado do Judaísmo, o Pentateuco também é indício que se reuniam para, secretamente, praticar o criptojudaismo.

No Rio de Janeiro do inicio do século XVII, criptojudeus reuniam-se na casa do médico Manoel Leitão para celebrar o Shabbat, todas as sextas-feiras.
Diziam que participavam de jogos de cartas

Fazia parte desse grupo Izabel Mendes e sua família.
Izabel ainda sonhava em manter-se judia.
Acreditava que a Lei Velha era a perfeita, e a que guardavam os profetas.
E que a Lei de Moisés era a boa, e que tudo o mais era vento.

Por observância da Lei, realizava rituais bastante próximos do Judaísmo tradicional, como a preparação para o sábado, que guardava como dia santo, vestindo nele roupas limpas, acendendo as candeias, assim como os demais cristãos novos com os quais se reunia para celebrarem seu criptojudaismo.

Mantinha em seu imaginário a representação de um Judaísmo, embora já apresentando traços de sua educação cristã e de sua cultura ibérica.
Dizia que o templo de Salomão estaria em Lisboa, e não em Jerusalém.

Sua irmã, Beatriz da Costa, casou-se com o espanhol Duarte Ramires de Leão em 1617. Duarte tinha o nome judaico de Binyamin Benveniste.
Um de seus filhos, Gregório Mendes de Leão, comerciava em Amsterdã, onde tinha um nome de judeu Nicolas Hermans e professava a Lei de Moises fato conhecido no Rio de Janeiro.
No século XVII o contato entre os cristãos novos do Brasil e os de Portugal e Europa eram frequentes, reforçando o conhecimento que tinham do Judaísmo, inclusive as datas das celebrações.

Nas Minas Gerais do século XVIII, segundo Anita Novinsky, as sociedades secretas seguiam a rota do ouro.
Reuniões clandestinas eram imediatamente organizadas em cada cidade ou aldeia fundadas nas regiões produtoras de ouro, como por exemplo, em algumas casas em Ouro Preto, arraial do Tijuco (região de mineração de diamantes), Rio das Mortes e Ribeirão do Carmo.
Durante essas reuniões, ocorriam transações comerciais; a confiança era estabelecida, e ao mesmo tempo se consolidava a resistência, e um "sentimento" particular do mundo: o marranismo.
Entre os participantes desses grupos clandestinos havia criptojudeus convictos, descrentes, agnósticos, e outros cristãos
novos identificados como judeus, não por sua conduta ou crença, mas devido a sua origem.

Encontramos indícios da continuação dessas sociedades secretas em outras localidades do Brasil durante a primeira metade do século XVIII.

Catarina Soares Brandoa, portuguesa, meia cristã-nova, descreveu uma festa de casamento ocorrida no Rio de Janeiro que se configura como uma das maiores reuniões entre os cristãos novos, para comemorar o casamento de Caterina Marques, filha do homem de negócios José Gomes Silva nesta festa, à maneira judaica, homens mantiveram-se separados das mulheres, declararam-se judeus e criticaram o catolicismo, dizendo que o vinho era o sangue de Jesus.

No Rio de Janeiro, Tereza Paes de Jesus foi ensinada no Judaísmo por um grupo de mulheres, e com elas professava sua nova crença.

Ana Izabel de Siqueira, filha do médico Francisco de Siqueira, que morava em Lisboa desde criança, quando foi para lá junto com a mãe, Catarina de Miranda, presa pela Inquisição, foi denunciada por reunir-se regularmente às sextas-feiras e sábados, estando com os melhores vestidos e roupa lavada, se fechavam em certa casa onde ela, ré, e companhia, se acautelavam de que as vissem, de que se ficou entendendo que ela, ré e a companhia se acautelavam tanto para melhor guardarem os sábados.


No Rio de Janeiro do início do XVIII, a ameaça inquisitorial levou um grupo a se unir, secretamente, para definir estratégias, e prepar uma conjuração.

Em 1711, vários cristãos novos estavam presos à espera da frota que os levaria a Lisboa, quando a cidade foi invadida e tomada pelos corsários franceses comandados por Duguay-Trouin, que libertou os prisioneiros.
Ao saírem do cárcere, já não tinham nada: seus bens haviam sido confiscados, alguns já leiloados pelo Fisco, embora algumas casas na área rural ainda estivessem desocupadas.
Foi para onde se dirigiram.
Reuniram-se para definir estratégias, pois desconfiavam que quando os corsários partissem seriam novamente presos.
Estavam particularmente receosos dos depoimentos dos cristãos novos que ainda não haviam sido presos, e decidiram ameaçá-los para que nada dissessem sobre eles se interrogados.
Assim, a família Correa Ximenes, que havia sido presa, ameaçou a família Barros, ainda livre.
Disseram "que a criminariam em forma neste Santo Tribunal, que teriam seus bens confiscados", e que "quem tem telhado de vidro não atirava pedradas ao telhado de seu vizinho"

Conheciam o funcionamento do Tribunal do Santo Ofício, sabendo que para salvar suas vidas, deviam denunciar a todos que conheciam, confessar o que os Inquisidores desejassem.
Quando chegaram os navios, foram todos novamente presos e enviados para Lisboa.
E, conforme o prometido, denunciaram os Barros, que foram presos em seguida.

Um outro caso também mostra como os cristãos novos utilizavam o conhecimento tanto do funcionamento do Tribunal como do criptojudaísmo para a sua sobrevivência.
Isabel de Barros Silva era filha de José Gomes Silva, um dos homens mais ricos do Rio de Janeiro, mercador, contratador e senhor de engenho.
Casou-se com Bento de Lucena, senhor de engenho, quando tinha 16 anos.
Tiveram cinco filhos.

Isabel da Silva foi batizada e crismada na Sé do Rio de Janeiro.
Não sabia ler nem escrever; mas administrava um patrimônio considerável.
Um engenho, escravos, gado.
Mantinha uma casa na cidade, com sete escravos, entre eles costureiras e rendeiras. Fazia negócios, comprava e vendia escravos, contratava serviços para o engenho, enviava mercadorias para serem vendidas nas minas de ouro.

Ao ser presa em 1712, tinha 27 anos.
Sabia muito bem o que deveria dizer no Tribunal da Inquisição.
Foi entregue nos cárceres dos Estaus, em Lisboa, no dia 11 de outubro de 1712; no dia 17 de outubro, iniciou sua confissão.
Metodicamente, denunciou a todos que conhecia.
Começou pelos pais.
Satisfez os inquisidores, não foi submetida à tortura e em julho de 1713 saiu em Auto de Fé, condenada a cárcere e hábito penitencial a arbítrio dos inquisidores, tendo tido todos os seus bens confiscados.

Após a penitência, Isabel da Silva ficou morando em Lisboa.
Casou-se com Antonio de Morais, com quem não teve filhos.
Preocupava-se com seus filhos pequenos que haviam ficado no Rio de Janeiro.
Viúva novamente recebeu licença para voltar para o Brasil.

Izabel foi morar com os filhos em um engenho em Irajá.
Era o Campinho, engenho que havia sido confiscado pela Inquisição a Agostinho de Paredes e arrendado ao fisco por um cristão velho, Joaquim de Almeida Soares.
Por volta de 1723, uma das filhas de Izabel, Esperança, então com 18 anos, mantinha trato ilícito com o dono do engenho em que moravam.

Izabel preocupava-se também com seus sobrinhos, filhos de sua irmã Catarina Marques, que havia morrido em 1712, no navio em que ia presa para Lisboa.
Moravam com seu tutor, o padre Matias Gonçalves, cura da freguesia de Jacarepaguá, no engenho em que haviam nascido e se criado.

Um de seus sobrinhos, José da Silva, foi preso em 1723 (cerca de dez anos após a prisão da mãe) e penitenciado pela Inquisição de Lisboa.

Isabel da Silva considerou que a melhor maneira de seus filhos e sobrinhos se livrarem de uma pena maior e das torturas seria se eles se apresentassem ao Tribunal do Santo Ofício, isto é, que voluntariamente confessassem suas culpas, pois certamente, mais cedo ou mais tarde seriam presos (a Inquisição prendia sempre todos os membros de uma família).

Izabel elaborou um rol de pessoas para os filhos e sobrinhos denunciarem, e uma lista de práticas judaizantes para confessarem.
Instruiu-os sobre o que dizer na Mesa do Santo Ofício.

Após se apresentarem ao comissário do Santo Ofício no Rio de Janeiro, foram enviados para Lisboa, confessaram e denunciaram todos os cristãos novos que conheciam e em poucos meses foram condenados e penitenciados em Auto privado de Fé.

Imprudentemente, havia discutido o assunto com o tutor de seus sobrinhos e com o dono do engenho onde morava e um sobrinho deste.
Eles, entretanto, ficaram com medo do Tribunal.
Apresentaram-se ao Comissário no Rio de Janeiro e contaram ter participado de conversas com Izabel onde ela lhes contara seus planos.

Foi presa novamente em 1723 e enviada para Lisboa.
Ali chegando, confessou imediatamente o que fizera:
ensinara os filhos e sobrinhos em como enganar os inquisidores; fizera com que confessassem práticas e crenças que não tinham, que denunciassem pessoas que sequer conheciam, tendo para isso feito um rol de pessoas.
Declarou:

aconselhou seus filhos e sobrinhos para que se apresentassem, sendo que se tinham culpas pertencentes a esta Mesa, o que ela não podia saber pela educação que lhes dava, apresentando-se se livrassem da vexação de serem presos e não tendo culpas ficavam vivendo na lei de Cristo Senhor Nosso em que os tinha ensinado

Os inquisidores condenaram Izabel da Silva, porque induziu a seus filhos e sobrinhos para que denunciassem na mesa do Santo Ofício contra pessoas contra quem os mesmos depuseram.

Nas suas declarações, reafirmou que os filhos e sobrinhos viviam na Lei de Cristo, assim como ela; após a primeira prisão nunca mais havia judaizado.
Os inquisidores não a acusaram de heresia judaizante, mas sim de ter atentado contra a idoneidade do tribunal:

não declarou a verdadeira tenção que teve em aconselhar o sobredito falsamente, presumindo-se que ela ré maquinou por querer perturbar o reto ministério do Santo Ofício e desacreditar o procedimento e interesse de seus ministros

e mais estava convicta no crime de induzir pessoas a jurar em falso na mesa do Santo Ofício em matérias de heresia.

Isabel da Silva foi condenada ao açoite público e ao degredo de dez anos para o Algarve.
Saiu no Auto de Fé de 18 de maio de 1727 e quatro dias depois chegou ao Algarve.

Os filhos e sobrinhos, após terem sido penitenciados em 1723, continuaram a morar em Lisboa.

Os Inquisidores aceitaram a confissão de Izabel, e não acusaram os filhos e sobrinhos de heresia, mas sim de falsidade, e eles foram novamente presos.

Os cristãos novos do Rio de Janeiro, que após terem sido presos estavam em Lisboa, sabiam das denúncias que a família havia feito contra eles.
Chamados para depor, disseram que conheciam a história do rol; que os filhos e sobrinhos de Izabel não conheciam as pessoas a quem tinham denunciado porque viviam isolados nos engenhos.
Haviam mentido e prejudicado vários inocentes.

Assim, durante todo o período colonial os cristãos novos reuniam-se secretamente para transmitir o conhecimento do Judaísmo, mantendo uma memória que pesquisas feitas atualmente demonstram que, em parte, está ainda viva no seio de algumas famílias católicas, como reminiscências da antiga fé judaica.



Lina Gorenstein A Inquisição contra as mulheres.
São Paulo, Humanitas, 2005, p.319 e seg.

Anita Novinsky Inquisição
- Prisioneiros do Brasil, séculos XVI- XVIII.
Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 2002 e Lina Gorenstein "O Brasil marrano
- as pesquisas recentes"
- comunicação apresentada no Seminário Interno do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância, 2005 e publicada no site http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br

Anita Novinsky Cristãos-novos na Bahia São Paulo, Perspectiva, 1972, cap.
"O Homem dividido" e Lina Gorenstein A inquisição contra as mulheres, op.cit.,p.387 e seg.

Anita Novinsky "Ser marrano em Minas Colonial" in Revista Brasileira de História. São Paulo, ANPUH/Humanitas, n.40, julho de 2001, pp.161-176.

Primeira Visitação do Santo Oficio às Partes do Brasil
- Denunciações e confissões e Pernambuco (1593-1595).
Recife, Fundarpe, 1984
(introdução José Antonio Gonsalves de Mello), p.30 e seg.

Ângelo Adriano Faria de Assis Macabeas da Colônia:
criptojudaismo feminino na Bahia
- séc.XVI-XVII.
Niterói, UFF, Doutoramento, 2004, mimeo.

Primeira Visitação, op.cit., p.48

Lina Gorenstein A inquisição contra as mulheres, op.cit., p.63

Idem, p.74 e seg.

Anita Novinsky "Ser marrano em Minas colonial", op.cit.

Lina Gorenstein A inquisição contra as mulheres, op.cit., p.163 e seg.

Idem, 373 e seg.

Ibidem, p.346

Lina Gorenstein Ferreira da Silva Heréticos e Impuros - Inquisição e cristãos-novos no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro, Séc. Municipal de Cultura, Depto de Informação e Editoração, 1995, cap. 5 "A Igreja contra o Judaismo", p.101-113

Lina Gorenstein A Inquisição contra as mulheres, op.cit., p.274 e seg.

Quem são os Cristãos Novos ou Marranos?

Uma parte da sociedade brasileira, incluindo parte da comunidade judaica, desconhece tudo ou quase tudo sobre os marranos.
A outra parte tem conhecimentos superficiais, não muito precisos historicamente.
É comum, por exemplo, ouvir essas pessoas comentando que marranos eram os judeus portugueses que mudaram seus nomes hebraicos para portugueses, geralmente de plantas e animais.
Embora isso de fato tenha ocorrido como evidenciam alguns Oliveira, Pereira, Carneiro e Lobo, não só nomes identificados com a fauna e a flora foram usados por aqueles judeus.
O universo de nomes portugueses adotados pelos marranos engloba praticamente todos os nomes próprios usados pelos lusitanos, conforme constatamos em Raízes Judaicas no Brasil, de Flávio Mendes Carvalho.
Aos interessados no assunto recomendo meu livro Os Marranos e a Diáspora Sefardita.
Outro erro freqüente entre os que têm noções sobre os marranos é relacionar a designação com "porcos" da língua espanhola.
De fato, a tradução literal é coincidente, mas o termo "marrano" é muito mais transcendente, segundo explicações de especialistas como David Gonzalo Maeso
("A respeito da etimologia do vocábulo marrano", em Os Marranos, coletânea organizada por Nachman Falbel e Jacó Guinsburg)
e Elias Lipiner (Santa Inquisição: Terror e Linguagem).
Com base nestes estudos, semanticamente é mais correto e espiritualmente mais justo, entender o termo marrano como a junção das palavras hebraicas mar (amargo) e anussim (forçados).
Isto é:
os forçados amargamente a deixar o judaísmo.
Nesse ponto, o da religiosidade, há ainda aqueles que dizem que os marranos traíram o judaísmo para usufruir a vantagem de uma cômoda conversão ao catolicismo.
Qual a vantagem, pergunto?
A aparente vantagem era enganosa, e aqueles judeus sabiam e sentiam na pele que ao aceitar a religião imposta, aceitavam também ser julgados como hereges cristãos ao praticar ritos judaicos clandestinamente.
Então, uns poucos privilegiados
(e mesmo assim necessitando de muita sorte)
conseguiam sair de Portugal rumo à Holanda, Turquia, Marrocos, Brasil.
Outros realmente optavam por morrer queimados gritando o Shemá Israel!
E não foram poucos.
Os inquisidores, percebendo que a armadilha da conversão não atraía o número esperado de judeus que seriam logo acusados e condenados sumariamente, enquanto seus bens iam para a Igreja, trataram de fazer a Inquisição funcionar a pleno vapor. A metáfora lembra de perto os campos de extermínio nazistas.
Entrava em cena a "Fábrica de judeus", expressão criada pelo dominicano e deputado da Inquisição, Domingos de São Tomás (1640-1670).
Com isso, desde o final do século 15, milhares de judeus foram oficialmente tornados cristãos em Portugal, por decreto.
Nessa situação, não havia a opção nem de sair do país, nem de morrer na fogueira. Muitos se suicidaram!
não concordamos com um suicídio coletivo.
Nem a Torá concorda!
Quando Moshe Maimon respondeu aos judeus iemenitas no século 12, recomendou que aceitassem o Islão em vez do suicídio coletivo.
Em sua sabedoria, Maimon intuía que a história faria justiça aos descendentes daqueles judeus do Iêmen que foram obrigados a deixar sua fé mosaica.
A história também faria justiça aos marranos.
Quem acha que os marranos traíram o judaísmo por conveniência, comete duplo erro: histórico e moral.
Os marranos não tiveram opção.
Nem o suicídio era opção.
Torturados física e psicologicamente, mães assistiam, inertes, a seus filhos serem raptados pela Igreja para serem criados em lares católicos, enquanto outras crianças judias eram abandonadas na ilha africana de São Tomé para serem devoradas pelos animais.
Pergunto de novo:
Qual a vantagem do judeu se tornar cristão nessa sociedade?
Por último, o grande erro de muita gente é dizer que a Inquisição aconteceu "Há tanto tempo" que nenhum descendente daqueles judeus poderia reivindicar seu direito de pertencer ao povo de Israel hoje.
A história tem seu curso natural e não se apavora com 500 anos.
Os marranos brasileiros da atualidade que, por convicção própria, desejam retornar ao judaísmo devem ser acolhidos de braços abertos pela comunidade organizada.
A bem da verdade, as conversões forçadas em Portugal e Espanha se intensificaram há 500 anos.
A Inquisição só parou de perseguir os judeus nas primeiras décadas do século passado. Visto assim, a história é bem mais recente.
O trabalho por nós desenvolvido, no sentido de recuperar a herança judaico-marrana no Brasil, tem encontrado muita receptividade em pessoas apaixonadas pelo judaísmo, pelo Estado de Israel, pela cultura judaica, e que desejam sinceramente fazer o caminho de volta, teshuvá.
Felizmente, a receptividade por parte de rabinos, intelectuais e lideranças comunitárias judaicas tem sido muito favorável para receber e integrar comunitariamente também esses Filhos da Aliança.
Notas:


1) Ed. Nova Arcádia, São Paulo, 1992.
2) Ed. Capital Sefarad, São Paulo, 1995.
3) "Ouve ó Israel!", uma das principais orações da liturgia judaica, que reafirma a unicidade de Deus.

http://amigosisraelpiquete.tripod.com/

16 de abr. de 2010

O domínio da imaginação

Do mesmo modo que o consumo excessivo e habitual de álcool acaba por provocar uma habituação fisiológica que leva ao alcoolismo, o consumo excessivo do erótico provoca uma dependência inevitável e uma sobreexcitação habitual, ao mesmo tempo que reduz a capacidade de contemplação estética da sexualidade.
Como o paladar estragado pelo picante, o gosto sexual estragado pelo erótico necessita de níveis cada vez maiores de excitação.
Torna-se incapaz de gostar dos sabores delicados e começa a procurar sensações cada vez mais artificiosas e violentas, até terminar nalgum dos muitos desvios possíveis e no aborrecimento mais completo.

Sobrealimentar o instinto sexual conduz a um funcionamento desorganizado da imaginação e dos desejos sexuais, do mesmo modo que, se um motor tem demasiada gasolina dentro, não funciona bem, afoga-se.
Se uma quantidade excessiva de álcool tem como consequência inevitável a embriaguês, também o sexo tem um tipo de embriaguês particular.

Já vimos que a ruptura interior faz com que o instinto não esteja dominado totalmente pela liberdade.
Por vezes pode haver uma resposta psicológica ou fisiológica desordenada e à margem da vontade.
Também neste caso, há que distinguir entre o mero descontrolo dos instintos e a vontade que consente o mal.
Sentir não é consentir.
A falta de domínio pode fazer que venham à imaginação todo o tipo de imagens estranhas, como pode provocar os desejos mais violentos de qualquer aberração.

Nesses casos, basta que a vontade se oponha e se distancie desses sentimentos, que muitas vezes não se podem evitar.
E essa vontade levará a afastar-se, dentro do possível, do motivo ou das ocasiões que o produzem.
Travar esses impulsos da imaginação e do desejo é o único meio de ir educando essas faculdades, para que sirvam adequadamente à capacidade de amar que temos.
Só essa educação conseguirá integrar os diversos níveis da nossa sexualidade e fazer que o corpo e a mente sejam bons instrumentos do nosso amor.

O domínio dos sentidos

Num momento, como o atual, em que é tão grande a carga erótica das modas, meios de comunicação, etc., muitos perguntam-se como manter uma atitude correta quanto à estética da sexualidade.
Convém aqui recordar que ver não é o mesmo que olhar.
É inevitável ver muitas coisas que não se deve
O que se pode evitar é olhá-las, reparar nos pormenores, o adoptar essa atitude que contempla os aspectos do objeTo apetitoso que o outro apresenta.

Para educar a vista, requer-se um contínuo domínio dos olhos, que rejeite tudo aquilo que vá contra as leis do pudor antes mencionadas.
Necessitamos ter uns olhos e uma imaginação treinados a considerar as pessoas como tais não como objetos.
Quem se deixa levar pelo atractivo sexual imediato do corpo, cai inevitavelmente numa consideração animal do outro e provoca o disparo do próprio instinto.
Quando uma pessoa tem o hábito de deixar-se arrastar pelos olhos, não pode evitar que o seu cérebro tenha uma carga excessiva de erotismo.

O que dizemos dos olhos, pode-se aplicar ao ouvido, ao tato, etc.
Quando algo provoca um disparo da excitação, é necessário evitá-lo, porque se não, cair-se-á inevitavelmente sob o domínio descontrolado do instinto animal.
Aqui há que distinguir entre sentir e consentir.
Para educar a sensibilidade, a vontade terá que lutar com uma dinâmica que nem sempre domina.
Como sucede com o cavalo que ainda não está domado, por vezes o domínio pode realizar-se só distanciando a vontade do que se sente, rejeitando essa resposta fisiológica que não dominamos.
Pouco a pouco, este exercício fará com que o nosso corpo esteja cada vez mais educado.
Necessitamos educar a nossa própria sexualidade, aprender a viver o nosso próprio corpo e o corpo dos outros como parte duma personalidade espiritual, como expressão duma alma que é capaz de amar e merece ser respeitada.

A representação da intimidade conjugal

Dentro do campo que estamos analisando, coloca-se a questão de se é possível uma representação digna e nobre da intimidado conjugal.
Para resolver a questão, há que considerar que o essencial dessa intimidade é a mútua entrega das pessoas.
Sem a entrega do coração e da vida inteira, essa intimidade seria má.
O problema é que a diferença entre a prostituição e a intimidade conjugal não é apreciável sob a perspectiva visual.

A contemplação visual do acto sexual não serve para expressar artisticamente o amor pessoal, porque a força do carnal impõe-se de modo espontâneo.
Para exprimir o amor, são muito mais gráficos certos gestos e expressões do que a intimidade conjugal, de uma interpretação meramente carnal.

Por esta razão, os que se amam, procuram a intimidade, estar resguardados de olhares estranhos.
Não porque vão fazer algo vergonhoso, mas porque a vista não transmite a verdade de um amor autêntico. O que é expressão de carinho pode ser interpretado como mero uso sexual.
E aqueles que se amam não estão dispostos a sofrer a vergonha de semelhantes interpretações.
Só os animais, e nem sequer muitos deles, fazem o acto sexual à vista de outros.
A intimidade pessoal autêntica exige uma intimidade e discrição físicas, uma segurança exterior.
Por isso, entre outras coisas, todo o casal precisa de ter a sua própria casa.
E por isso nenhuma representação artística da intimidade conjugal faz justiça à verdade dessa relação.
Não é possível uma representação artística digna e moral dessa intimidade.
É inevitável que seja interpretada por muitos, ainda que sem culpa, ao nível da simples prostituição.
Quando uma pessoa não se importa com isso, é que perdeu a sua dignidade pessoal.
Não lhe resta já uma intimidade a salvaguardar.
É puro objeto.

As condições da nudez

Quando determinadas circunstâncias profissionais exigem que uma pessoa se dispa, para salvar a intimidade e a dignidade pessoal requerem-se um conjunto de condições que defendam essa dignidade.
Em primeiro lugar, ante o perigo sempre real de uma inadequada interpretação dessa situação, é preciso que essa nudez seja necessária para um fim digno e nobre.
É o caso de uma consulta médica ou de um modelo artístico.
A dignidade própria da relação médica ou da autêntica criação de beleza fazem com que a nudez fique justificada.

Mas é necessário criar uma situação adequada, que afaste todo o perigo para a dignidade pessoal do paciente ou do modelo.
A presença duma terceira pessoa na consulta médica foi sempre um fator elementar de prudência, já que anula uma série de possíveis dificuldades e favorece a percepção dos aspectos estritamente profissionais da situação.

No caso do modelo de arte, a rectidão e limpeza da situação fica afirmada pela seriedade, a profissionalidade, a amplitude e a distância necessárias e pela ausência de qualquer outro factor que não seja a busca da beleza.
Muitos pintores e estudantes de belas-artes poderão confirmar que essa busca justifica a necessidade da nudez e torna digna a situação do modelo.
Do mesmo modo, outros poderão saber que, por não cuidar dos pormenores, essa relação pode-se corromper e ser ocasião de mal.

A intimidade corporal e a entrega

Uma vez que as condições ambientais, técnicas, culturais, estabelecem as leis próprias do pudor, define-se espontaneamente a fronteira entre o pudico e o impudico. E estabelece-se o limite natural da intimidade pessoal.
O vestuário tem a função de personalizar o corpo, de expressar a própria personalidade.
Por isso tem a função de estabelecer o grau de relação com uma determinada pessoa. Quando as leis do pudor estabeleceram o que define a intimidade corporal, estabelece-se uma união entre a intimidade pessoal e a intimidade corporal.
As duas caminham a par, porque a pessoa é ao mesmo tempo corpo e espírito.
Quando se entrega o corpo, entrega-se a própria pessoa.
E quando se abre a intimidade corporal, abre-se a intimidade pessoal.
Separar esses dois fatores produz uma ruptura interior da pessoa.
Como a pessoa é indissociavelmente corporal, para criar um espaço de intimidade espiritual, de riqueza interior pessoal, tem de se criar um espaço de intimidade corporal.
Todos os torturadores sabem que a nudez corporal é um modo muito eficaz de rebaixar e destruir a dignidade e a resistência interna das pessoas.
Quando uma pessoa não defende a sua própria intimidade corporal, isso significa que não tem uma intimidade pessoal a salvar.

A prostituição destrói o mais íntimo das pessoas, por isso provoca tanta pena ou tanta repugnância.
Quem entrega o corpo sem entregar a alma, prostitui-se.
Quem entrega a intimidade corporal sem entregar a intimidade pessoal, prostitui-se.

Por isso, a nudez, a abertura da intimidade corporal, deve estar sempre ligada à entrega mútua e total da própria pessoa, que se realiza no matrimónio.
A nudez é sinal de abandono e entrega plena, por isso tem de haver uma entrega mútua e para sempre; doutra forma, haveria prostituição por parte de um ou de outro.
Se a nudez não é expressão de uma entrega pessoal, então é porque essa pessoa se está apresentando perante os outros como simples objeto, com o seu inevitável valor sexual em primeiro plano.

As leis do pudor

Para saber o que é o pudor e o impudor no homem e na mulher, cada um deles deve ter em conta a diferença natural de percepção do outro.
Já referimos que o homem reage naturalmente, de modo automático, perante os valores meramente carnais do sexo feminino, enquanto que a mulher não sente habitualmente essa mesma atração imediata perante o corpo do homem.

Por outro lado, o que é pudico ou impudico depende da situação em que nos encontramos e da função que tem que cumprir o vestuário.
Não é o mesmo estar a tomar banho que estar numa festa.
O que é perfeitamente apresentável como fato de banho, é totalmente inadequado como fato de festa.
Aparecer numa festa de sociedade em fato de banho, é apresentar-se de modo impudico, destacar o estritamente sexual.
E assim o sentirão todos os presentes.

O pudor não se pode reduzir, portanto, a centímetros de roupa. Depende de um conjunto de factores que influem na percepção que os outros têm de nós. Depende das diversas situações e da função do vestuário e depende também dos costumes no modo de vestir. Se, numa sociedade em que todas as mulheres andassem com as saias até ao tornozelo, uma se apresentasse com a saia a meio da perna, chamaria a atenção. E a atenção recairia sobre aspectos significativamente sexuais.

Por outro lado, as mesmas mulheres que andavam com as saias até ao tornozelo, quando chegava a hora de ir trabalhar para a horta, não tinham nenhuma dúvida em recolher as saias, pois a situação assim o exigia, para não estragar a pouca roupa que tinham.
E ninguém considerava que aquilo fosse impudico.
Se todas as mulheres andam com a saia a meia perna, isso não chamará a atenção, nem provocará uma consideração basicamente sexual do corpo.
Mas nem tudo é uma questão de costume.
Há certas leis características da percepção que reclamam a atenção sobre um ou outro aspecto do corpo.
Determinados tipos de decotes ou mini-saias, roupas cingidas, etc., não podem deixar de chamar a atenção sobre os aspectos provocativamente sexuais do corpo feminino.
E não é questão de mais ou menos roupa.
Pode ter mais roupa e menos pudor.
Podemos ver isso, nalguns casos, na nossa sociedade.

Isto é também o caso de certas tribos sem cultura nem técnica, que habitam em zonas húmidas e quentes.
As circunstâncias de ambiente e a sua falta de técnica tornam impossível a roupa adequada, pelo que andam quase nus.
O pudor costuma expressarse dissimulando o estritamente sexual, mediante uma simples faixa.
Mas quando uma mulher quer chamar a atenção do homem, o que faz é precisamente cobrir o peito.
As leis da percepção fazem que isso chame mais a atenção, uma vez que nunca anda coberta.
E o que não se vê, mas se imagina, é mais provocativo que o que se vê normalmente, porque as circunstâncias fazem que esse modo elementar de vestir seja o único possível e, portanto, que seja pudico.
Nessas circunstâncias, a percepção do conjunto da sociedade está habituada a expressar o pudor e o impudor sempre da mesma maneira.

Uma percepção deste género seria impossível num lugar como o nosso, no qual o clima exige cobrir-se em determinadas épocas.
O simples fato de andar vestido em certas alturas altera totalmente a percepção da intimidade corporal.
Se estamos habituados a ver-nos vestidos, a nudez tem um significado totalmente diferente, destaca uma "disponibilidade" sexual que não se apresenta na percepção de quem por necessidade anda habitualmente nu.
Há aqui uma legalidade natural que nenhuma vontade pode alterar, nem sequer pelo desejo de uma pretendida naturalidade.
O natural para o homem depende da sua formação cultural, pois essa formação altera a sua constituição neuronal e estabelece modos naturais de percepção, dificilmente alteráveis.
O fenómeno contemporâneo da perda do pudor e do nudismo é algo totalmente diferente da nudez habitual e constante dos "bons selvagens".

O sentido do pudor

Se o corpo é expressão da alma, a educação do corpo levará a apresentá-lo como manifestação adequada do ser espiritual da pessoa.
A intimidade pessoal tem também um reflexo na intimidade corporal.
Já indicámos a diferença entre o domínio total do corpo que nos descreve o Génesis e a situação actual de ruptura interior.

O pudor é o aspecto da educação que nos leva a apresentar-nos, sempre como pessoas com alma e corpo.
É a defesa do aspecto pessoal do corpo, é evitar que apareça como simples objecto sexual.
Uma vez que essa experiência do corpo como simples objeto apetitoso está dentro das possibilidades normais de qualquer pessoa, quando nos apresentamos junto dos outros procuramos evitar-lhes que caiam numa consideração meramente animal do nosso próprio corpo.
E assim evitamos ser considerados como animais.
Porque o nosso corpo é parte da nossa pessoa.
O pudor consiste em apresentar o carácter pessoal do corpo.
O impudor consiste em apresentar-se como objecto sexual, em destacar o estritamente sexual, de maneira que chame a atenção do outro de maneira imediata.

A ruptura interior

Mas, continua a narrar o Génesis, Adão e Eva pecaram.
Opuseram-se a Deus e encerraram-se na soberba de querer ditar as regras do bem e do mal.
Ao perder essa inocência e essa generosidade plenas do coração em relação a Deus, perderam também a integridade interior da sua própria pessoa.
A generosidade já não reinava no seu coração.
Por isso se manifestou o egoísmo nas suas relações mútuas.
Com efeito, diz a Bíblia que, só depois de pecar, "viram que estavam nus , e fizeram uns cinturões com folhas"
(Gen 3,7).

Que quer dizer "viram que estavam nus"?
Porque estiveram nus toda a vida até aí:
"Estavam os dois nus, o homem e a sua mulher, sem envergonhar-se um do outro"
(Gen 2,25).
O que quer dizer é que já não dominavam o seu corpo, que o seu corpo já não era a expressão perfeita de uma alma generosa e enamorada.

O egoísmo da alma traduziu-se no egoísmo do corpo.
A ruptura da alma com Deus trouxe consigo a ruptura com o corpo, a sua rebelião em relação à alma.
Por isso, a sua sexualidade deixou de ser expressão de uma generosidade e entrega que tinham perdido.
Adão e Eva deram-se conta de que já não se viam com a mesma inocência de antes.

Antes tinham sido criados como marido e mulher, mas a sua sexualidade era sempre e só amor, entrega mútua.
Agora descobrem que experimentam o corpo do outro, não só como expressão da sua pessoa, mas também como mero objecto sexual que satisfaz o instinto descontrolado. Por isso têm vergonha e cobrem-se com uns cinturões com folhas, para dissimular os aspectos estritamente sexuais do seu corpo.

Antes, a nudez era sinónimo da generosidade que reinava na sua alma, agora pode provocar uma resposta egoísta e animal, que envergonha.
E isso sucede-lhes a eles que, nesse momento, não tinham no seu passado nem um pecado de impureza, só o pecado original da soberba.

Mas com a ruptura interna provocada pelo pecado, para preservar o carácter pessoal do corpo, para poderem apresentar-se como pessoas e não como simples objectos sexuais, havia que dissimular o estritamente sexual.
Porque nem um nem outro têm já esse domínio total do corpo que permitia aquela absoluta naturalidade de antes. A descrição do Génesis narra de modo claro e adequado essa experiência que todos temos de um fator de desordem e descontrolo na nossa sexualidade.

Aparece assim o pudor, a defesa instintiva do carácter espiritual e pessoal da intimidade corporal.
O corpo continua a ser expressão da pessoa, da intimidade do espírito.
Mas agora essa capacidade de expressão não é algo já conseguido, mas tem de alcançar-se mediante o exercício da própria liberdade.

A integridade original do homem

Esta tarefa de personalizar a própria sexualidade, pondo-a ao serviço do amor, depara com a desordem que a natureza não treinada inclui.
O livro do Génesis narra em poucas palavras este choque entre o amor e a desorganização da sua afetividade.

O texto bíblico explica que, quando Deus criou os primeiros homens, para além de criá-los, elevou-os à vida sobrenatural e deu-lhes alguns dons sobrenaturais, entre outros, os da ciência e da integridade.
Quer dizer que, segundo o Génesis, Adão e Eva tinham todos os conhecimentos e toda a educação.
Sem necessidade de um processo de aprendizagem, Deus tinha-lhes dado essa "personalização" do corpo que necessitavam.

O seu corpo era um instrumento perfeito e uma expressão perfeita da sua alma.
E, por isso, a sua sexualidade era uma expressão perfeita da sua entrega e generosidade.
Viviam em perfeita amizade com Deus, no que se chama estado de graça habitual.
E essa generosidade a respeito de Deus, repercutia-se nas suas relações mútuas.

Tinham sido criados um para o outro, como pessoas capazes de entregar-se plenamente e assim se viam e experimentavam.
Não havia entre eles nada que os separasse, existiam um para o outro.
E cada um deles dava-se conta de que a entrega ao outro era caminho da entrega a Deus.

Por isso, continua a explicar a Bíblia, estavam nus e não sentiam vergonha.
Porque, para Adão, a nudez de Eva era expressão da entrega perfeita, da generosidade que impregnava toda a sua pessoa.
O carácter sexual do corpo era expressão da generosidade da sua alma.
E o mesmo acontecia com Eva a respeito de Adão.
Não cabia, na sua experiência, um modo de viver para o outro que separasse o corpo da pessoa.
O perfeito domínio e a total personalização do corpo, a integridade, união perfeita da corporalidade e da espiritualidade, fazia com que a sexualidade fosse perfeita expressão do amor pessoal.
Não tinha lugar o egoísmo.
Eram um para o outro e, assim, para Deus.

As manifestações de carinho

Quando há um carinho autêntico esse amor pessoal que se entrega inteiramente à outra pessoa e a aceita tal e como é, e para sempre é lógico que esse carinho se manifeste com expressões corporais.
Os beijos, as carícias, fazem parte da dinâmica natural de um amor autêntico.
A questão é descobrir quando essas manifestações de amor podem converter-se em ocasião de satisfazer o simples apetite sexual, pois deixariam de ser carinho para converter-se num modo de usar o outro.

Por vezes alguns namorados pedem "medidas" concretas.
Mas isso não é possível.
Não se pode determinar com nitidez uma "fronteira" válida para todos e para sempre. Não se pode dizer até aqui as carícias são boas, para além disso são más, porque o sentido real das expressões de carinho dependem da educação, da sensibilidade e do momento em que se encontra cada um dos noivos.

O que se pode dizer é que é má toda a carícia que busque a excitação sexual fora da perspectiva do ato sexual dentro do matrimónio.
Porque as carícias devem ser sempre e só expressão de amor autêntico.
A excitação sexual é expressão de carinho quando marido e mulher se preparam para "fazer amor".
Fora desse caso, converte-se em simples fonte de prazer carnal, não sabe a amor porque não o é.
É usar, não amar.

Por isso, quando as carícias são simples expressão da fome de prazer, são más. Inclusive quando se realizam entre marido e mulher.
No casal, a excitação pode ser parte integrante e boa do amor pleno e, neste sentido, não se justifica o medo que alguns têm do prazer, Mas a excitação há de ser fruto do carinho e exprimir carinho.
E a experiência indica que, por vezes, o outro não se sente amado mas usado.
O matrimónio não é uma licença para o mal, é formalizar e assumir, como reflexo da vontade, o amor e a entrega.
E cada carícia dentro do matrimónio tem de ser carinho e entrega.
Se não é assim, é mau, porque é simplesmente usarem-se, não amarem-se.

Por isso, há dias em que marido e mulher se vêem obrigados a tratarem-se com precaução, porque sabem que não vão "fazer amor" e que as manifestações lógicas de carinho podem desencadear um processo de excitação que só é e se saboreia como amor quando se realiza o ato conjugal.
E também por isso, o marido, de modo habitual, ao desejar fisicamente a mulher, deve esforçar-se por desejá-la como ela necessita de ser desejada, adaptando-se ao seu ritmo e à sua sensibilidade, que são diferentes dos seus, dando-lhe a ternura e a tranquilidade que ela necessita para sentir-se amada, não simplesmente usada.

Muitos noivos sabem que um beijo, que um dia é expressão de carinho, noutro dia pode não ser inocente.
Porque isso depende de como está o corpo nesse dia.
Hoje, o dobro é bom, amanhã, a metade é má, porque onde ontem havia carinho limpo, hoje mete-se a dinâmica da excitação e é preciso cortar, porque não se pode evitar a reacção do corpo que segue o seu egoísmo carnal.
E, por vezes, haverá que ter cuidado, porque se não, as coisas irão mal.
O carinho autêntico, se é realista, leva a ser sóbrio nas suas manifestações, porque conhece as próprias limitações e sabe que com o outro se pode passar o mesmo.
E se se ama outra pessoa, procura-se evitar os maus momentos e as situações em que tenha de passar pela tentação de prostituir o seu amor.

Um erro frequente

Muitas vezes, a mulher engana-se quando aplica aos homens o seu próprio modo de viver a sexualidade.
Os homens são mais diretamente carnais.
Sem serem particularmente brutos, podem experimentar o simples valor sexual do corpo duma mulher, totalmente à margem da sua afetividade ou do seu valor pessoal.
O homem é assim.
E é bom que a mulher o saiba.
Do mesmo modo que é bom que o homem saiba que as mulheres não são como ele, para que não interprete que estão na mesma onda que ele.

Um homem pode surpreender-se com a recusa de uma mulher, quando ele pensava que ela estava já há tempo metida na sua própria dinâmica de excitação.
Mas é que a mulher estava interpretando aquilo como carinho.
E só mais tarde se dá conta de que aquilo não é o amor limpo que ela queria e, por isso, o recusa.

Há homens que sabem isto e, por isso, sabem que, para alcançar o que querem, têm de fingir que estão apaixonados.
Enganar uma mulher, neste sentido, é relativamente fácil, porque ela está predisposta a interpretar como carinho as manifestações do homem.
Interpreta, a priori, de boa fé, a atitude masculina.
Se ela se expressasse dessa maneira sem um carinho profundo, sentir-se-ia como uma verdadeira prostituta.
Por isso tende a pensar o mesmo do homem.
E gosta de sentir-se amada.
Não se dá conta de que o homem, ante a proximidade de um corpo de mulher, reage, naturalmente e sem maldade, experimentando a atracção sexual desse objecto que lhe desperta o apetite.

Para evitar tratar a mulher como objeto, o homem tem que exercer um trabalho de autodomínio que não lhe é fácil.
Se a ânsia que a mulher experimenta por sentir-se amada não tem em conta esta realidade do modo de ser do homem, porá este em situações equívocas, nas quais o possível carinho pode ficar facilmente suplantado pelo apetite sexual.

Atrativo sexual da mulher

Há um modo de olhar para uma mulher que leva a dizer
Que bonita que é!

há outro modo de olhar que leva a dizer
Que boa que ela é!
Se fôssemos pela rua com a nossa mãe ou a nossa irmã e ouvíssemos o primeiro, ficaríamos orgulhosos.
Mas, se ouvimos o segundo, ficaremos irritados e com razão.
Porque o primeiro é admirar uma mulher, o segundo significa que se olha para ela como objeto sexual.
O primeiro é bom, o segundo mau.

Estou a referir-me ao que os homens experimentam em relação às mulheres, porque nisto homens e mulheres são muito diferentes.
A mulher não sente essa atração automática da carne perante o corpo de um homem.
Pelo contrário, o homem sente-o perante o corpo da mulher.
Por não saberem isto, muitas mulheres interpretam duma forma errada os olhares de muitos homens.
Se supõem que são olhadas com admiração, pensam que se referem a elas como pessoas e não sabem que, muitas vezes, se referem simplesmente ao seu corpo de mulher.

Não sabem que o homem tende espontaneamente a fixar-se nos aspectos meramente carnais, no que a mulher tem de objeto.
E por isso cometem o erro de quererem chamar a atenção jogando com aquilo que é propriamente sexual.
Se soubessem o que passa muitas vezes pela cabeça dos homens que as olham, e o desprezo que muitas vezes provocam neles, ficariam muito surpreendidas.
E algumas vezes dizem que os homens são umas bestas ou uns porcos, quando eles são, simplesmente, homens provocados na sua fraqueza pela ignorância vaidosa de uma mulher.

A tarefa de personalizar a sexualidade

Temos a experiência de que o modo de viver para os outros pode ser normal, mas sabemos também que podemos cair em considerá-los como simples objectos sexuais.
Por isso, o modo de vestir, as maneiras de estar e atitudes, o modo de olhar ou de pensar duma pessoa, devem ter em conta este fator.
Há que ser realistas, há que assumir que podemos cair mais baixo do que os animais.

Porque os animais não são pessoas e não têm que se olhar como tal, nem a si mesmos, nem aos outros.
Quando se olham como simples animais não fazem outra coisa que actuar segundo a sua natureza.
Mas nós somos pessoas e o corpo de cada um é parte e expressão da sua intimidade pessoal, uma intimidade que está feita para ser respeitada e amada.
Por isso, rebaixá-lo a simples objeto do apetite sexual é uma grave ofensa à sua dignidade de pessoa.
E, quem considera assim outro, está rebaixando-se a si mesmo mais do que os próprios animais.
Porque os animais não têm culpa, o homem impuro tem.

O domínio do corpo, dos apetites, da imaginação, dos olhos, é parte indispensável dessa educação da sexualidade que se converterá em expressão adequada da nossa capacidade de amar.
Sem essa educação, a sexualidade, como qualquer outro aspecto do corpo, actua a nível simplesmente animal, não é capaz de expressar a nossa personalidade espiritual.
E não será capaz de ser instrumento do amor, mas sim do egoísmo animal, típico de um apetite corporal não educado.

O carácter pessoal do corpo

O corpo é uma parte da personalidade humana. Como vimos, somos pessoas de carne e osso e para nos expressarmos e realizarmos necessitamos do nosso corpo. Fazemos tudo através dele. Para que essa expressão e realização saia bem temos de treinar o corpo. Há que aprender a dançar, a escrever, a andar, a falar, a pintar, a praticar qualquer desporto, a cantar e inclusive a comer. Se não, essas actividades fazem-se mal, duma forma tosca, sem graça, como pessoas incultas ou como animais. Para todo o tipo de expressão é necessário ter um corpo bem treinado. Esse treino é o modo de "personalizar" o corpo, para que não seja simplesmente carne e osso, mas expressão do meu eu, dos meus gostos, da minha pessoa. Através do treino e da educação, o corpo integra-se na nossa personalidade e permite-nos desenvolvê-la. O treino faz que a unidade de alma e corpo seja algo operativo, prático.

Se não há treino, ainda que a pessoa queira expressar-se e realizar-se, não poderá, sentirá a frustração de não poder comunicar o que tem dentro, de não poder realizar os seus sonhos.
Em lugar de cantar, sairão uns uivos próprios de animais; em lugar de dançar, uns movimentos desajeitados e ridículos; em lugar de saber exprimir-se, falará como um inculto e não poderá transmitir o que sente; em lugar de comer com dignidade, parecerá um animal que satisfaz os seus instintos e provocará repugnância.
Isto é uma coisa que todos sabemos.

Ora bem, o mesmo se passa com a nossa sexualidade.
É a expressão corporal da nossa capacidade de amar e de nos entregarmos por inteiro, mas se não a educarmos, em lugar de servir para expressar e realizar o amor, arrastar-nos-á a comportar-nos como animais, como se passa com quem não sabe falar ou não sabe comer.
Que a sexualidade seja expressão de amor é algo exclusivo e típico do homem.
E, como tudo o que é tipicamente humano, é algo que está por realizar, algo que há que conseguir com base no exercício da própria liberdade.

Corpo de homem, corpo de pai

Se o corpo de mulher é corpo de mãe, o corpo de homem é corpo de pai.
E este dado está também ausente da imagem do varão que se vende nos meios de comunicação.
Mais ainda, podemos dizer que, enquanto a degradação da imagem corporal da mulher é coisa dos últimos anos, a perda da imagem de pai é muito mais antiga.

Há muito tempo que a nossa civilização esqueceu que o problema fundamental de um homem são os filhos.
A imagem social do homem não destaca as suas funções de pai.
Os homens dedicam-se pouco à educação dos filhos, que ficou desde há muito tempo nas mãos das mulheres.
Inclusive quando se definem planos de formação e de estudos, pensa-se quase exclusivamente na formação profissional e não na formação de pais e mães de família.

Alma de mulher

Se dissemos isto a respeito do corpo, o mesmo podemos dizer a respeito do carácter e da psicologia feminina.
Em aspetos como a ternura, a suavidade, a capacidade de escutar e de mostrar o carinho de maneira imediata e sensível, o detectar as necessidades do outro, o saber reconhecer aquilo que é peculiar e próprio de cada pessoa, o aceitá-las como são, o ver as pequenas coisas concretas que fazem a vida diária agradável, o atender a essas coisas pequenas, que são tão necessárias para que o lar seja humano e íntimo, em todas estas coisas, a mulher é muito superior ao homem.

De muitas destas coisas, o homem nem se dá conta.
O que para a mulher é fácil e evidente, para o homem é, muitas vezes, difícil de ver e, ainda que por vezes o veja, talvez não saiba como fazê-lo ou como exprimi-lo com naturalidade.
Basta pensar na capacidade da mulher para a profissão de enfermeira.
Ou perguntarmos se preferíamos estar num hospital atendido só por enfermeiros ou só por enfermeiras.

Nesta linha, está ainda por aprofundar quais são os fatores específicos que a feminilidade da mulher pode trazer ao desenvolvimento da cultura e da civilização. Neste momento, a mulher está acedendo cada vez mais ao mercado do trabalho, mas em condições de inferioridade, porque a luta trava-se, muitas vezes em campos nos quais o homem tem vantagens.
Temos a tarefa urgente de repensar o papel insubstituível e específico das mulheres na construção da cultura atual, potenciar os aspectos em que ela é superior ao homem. E então a nossa civilização dará um grande salto adiante, será muito mais humana.

Homens e mulheres

Quando pensamos na diferença sexual, a primeira pergunta é a mais elementar:
por que está a raça humana dividida em homens e mulheres?
Se não sabemos responder a esta pergunta, dificilmente poderemos saber em que consiste ser homem ou mulher, dificilmente poderemos entender como têm de ser as relações entre eles.

Homens e mulheres temos muitas coisas em comum: a dignidade humana, a inteligência, a capacidade de iniciativa, a responsabilidade, etc.
No essencial, temos uma mesma natureza, que adquire matizes diferentes segundo se expresse em masculino ou em feminino.
Temos quase tudo em comum.
O que é que causa a diferença sexual?
Faça o leitor a pergunta a si próprio.

A única resposta convincente é que é preciso ter filhos.
Se não fosse necessário ter filhos, as pessoas não se dividiriam em homens e mulheres.
E as nossas relações de amor seriam distintas das que são agora.
Se existe o amor entre homem e mulher, é porque existem homens e mulheres.
E existem homens e mulheres pela necessidade de ter filhos.
Isto leva-nos a considerar que aquilo que é específico e diferenciador do homem é ser um possível pai, e aquilo que é específico e diferenciador da mulher, é ser uma possível mãe.
O resto é comum a homens e mulheres.